
E já que o assunto parece ser as andanças pelos países vizinhos, eis aqui uma imagem que, embora nada tenha a ver com as paisagens ermas povoadas por leões marinhos, tão bem descritas pela Cláudia, também tem aqueles ares de coisas inusitadas que raramente imaginamos tão perto.
Em uma das minhas idas a Buenos Aires eis que topei com esse velhote e seu bandoneón, espalhando a voz poderosa do instrumento que parecia cair como uma chuva de folhas de outono em pleno verão portenho, cobrindo todos os arredores da famosa e caótica Feira de San Telmo com a melancolia que só uma viagem ao passado consegue desenterrar. Tal qual certo flautista oportunista do era uma vez, o velhote magro, e até certo ponto apático, encantava um pequeno grupo que sabia que uma viagem é mais do que a compra indiscriminada de bugigangas.
Os dedos ossudos corriam lépidos pelas chaves do instrumento contrastando com a indiferença da igreja cuja soleira lhe dava um precário abrigo contra o sol e, em uma passagem mais vertiginosa de sua melodia, não mais que um estalo, Leona, minha deliciosa e incidental companheira de viagem australiana, tal qual uma das muitas bailarinas das caixas de música, regateadas pelas bancas ao redor, se põe a rodopiar por sobre os paralelepípedos centenários.
A arte fluindo de mãos cansadas, o frescor infantil se traduzindo em pés ligeiros. Naquela hora, os dois formavam a caixa de música mais sutil, mais suave e a mais tocante... A única que não estava a venda.
R.
Um comentário:
Oi Roger,
Que bom que gostou, fiquei em dúvida se poderia usá-la, mas fiz questão de deixar o crédito da foto que é realmente muito linda. Assim como a desse post.
abraços.
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